Segredo de (in)Justiça
O tema do artigo desta semana não poderia ser outro: as escutas em que surge António Costa. Ou melhor: as escutas em que surge António Costa e que foram tornadas públicas. Ou melhor ainda: o segredo de justiça que voltou – mais uma vez e quase em tom de tradição – a ser desrespeitado. Um dia, até temo que se torne lei.
A verdade é que a operação
influencer continua a fazer notícia. Mais do que qualquer influencer e apesar
de não ter produzido qualquer resultado visível. Quer dizer… “Apenas” o de ter
deitado abaixo um governo. “Apenas” esse.
Foram várias a escutas que
“apanharam”, de forma fortuita, o antigo primeiro-ministro António Costa a
conversar com colegas de governo sobre (e pasme-se!) assuntos da governação. De
forma descontraída, na convicção de que “apenas” está a conversar com um colega
de governo. Apesar de não terem qualquer relevância para o processo em causa,
estas escutas estavam integradas no inquérito, graças ao acórdão do Supremo
Tribunal de Justiça, que justifica essa decisão mesmo sendo “manifestamente
estranhas” à investigação. Portanto, a justificação – não sendo relevante para
a investigação – é, isso mesmo, puramente política.
Isto, esta justificação não
assumida, mas evidente, não pode deixar de preocupar qualquer cidadão. Não
podemos deixar de fazer perguntas. Temos de exigir explicações. Este controlo
da vida privada de um cidadão, fosse ele quem fosse, já foi normal (e legal) em
Portugal. E ainda o é em muitos países. Mas, felizmente, graças ao que
comemoramos a 25 de Abril, deixou de o ser. Deixou de ser normal (e legal) que
alguém seja escrutinado durante quatro anos (neste caso, o antigo ministro João
Galamba) sem uma razão aparentemente válida. Como se, de repente, as escutas
servissem para encontrar o motivo que poderia vir a permitir e a justificar a
escuta. Deixou de ser normal (e legal) que alguém decida não destruir escutas
que não têm interesse para o processo. Deixou de ser normal (e legal) que se
acrescente um parágrafo que, baseado em suposições, deite abaixo um governo.
Infelizmente, parece que tudo voltou a ser normal (e legal). E, infelizmente,
parece que nem resta o direito a uma explicação.
Mas há mais: este novo episódio
de violação do segredo de justiça mostra ainda um sentido de oportunidade que
não é (não pode ser) inocente. Todos percebemos isso. Exatamente naquela que
foi uma semana decisiva para António Costa chegar à presidência do Conselho
Europeu… Que pontaria!
Portanto… Se a ideia era
fragilizar a candidatura de um português a um cargo importante na Europa,
parabéns… Conseguiram! Mas conseguiram muito mais do que isso: a divulgação de
informação qua está em segredo de justiça mancha, indiscutivelmente, o bom nome
da Justiça em Portugal. E, pior ainda, mancha, indiscutivelmente, o bom nome de
Portugal e a nossa Democracia.
Assim sendo, só me apraz terminar
com um irónico (mas nada eufórico): “Conseguiram, conseguiram!”
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